Mais de 60 mil pessoas aguardam hoje por um transplante de órgão no Brasil, sendo quase 30 mil à espera de um rim. Apesar da alta demanda, uma parcela significativa dos órgãos captados não chega a ser utilizada.
Dados de 2024 da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) indicam que apenas cerca de 68% a 70% dos rins de doadores falecidos são aproveitados, o que reforça a necessidade de buscar estratégias capazes de melhorar a qualidade desses órgãos antes do transplante.
Nesse contexto, pesquisadores da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), com apoio da FAPESP, investigaram o uso do anakinra como forma de reduzir a inflamação em rins doados e aumentar as chances de funcionamento adequado após o transplante. O medicamento já é aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento da artrite reumatoide.
O funcionamento do rim nem sempre é imediato após o transplante. No Brasil, uma grande parcela dos pacientes que recebem órgãos de doadores falecidos desenvolve insuficiência renal aguda temporária no pós-operatório, o que pode prolongar a internação e exigir sessões de diálise até que o órgão se recupere.
Segundo o orientador do estudo, Mário Abbud-Filho, esse problema está relacionado ao estresse inflamatório sofrido pelo rim desde a morte cerebral do doador até o momento do implante.
“O órgão passa por um período prolongado em baixa temperatura e já chega ao transplante com um processo inflamatório instalado, o que dificulta a recuperação funcional”, afirma, em comunicado.
Foi a partir desse desafio que os pesquisadores passaram a buscar estratégias capazes de reduzir a inflamação antes do transplante, com o objetivo de melhorar a qualidade dos rins e ampliar o aproveitamento dos órgãos doados.
Anakinra como estratégia para reduzir inflamação
Uma das tecnologias mais avançadas para preservação de órgãos é a máquina de perfusão, que mantém o rim irrigado com solução oxigenada e nutrientes até o momento do transplante. Embora apresente bons resultados, o método ainda tem uso limitado no Brasil devido ao custo. Hoje, a maioria dos centros transplantadores utiliza a preservação estática, com o órgão mantido em caixas térmicas com gelo.
Foi nesse cenário que a equipe decidiu testar o uso do anakinra associado às máquinas de perfusão. “Sabemos que a inflamação começa ainda no doador, logo após a morte cerebral, e é agravada pelo período em baixa temperatura. A ideia foi adicionar a droga à perfusão para tentar preservar melhor o rim”, explica Heloísa Cristina Caldas, pesquisadora responsável pelo auxílio da FAPESP.
Os experimentos foram conduzidos no University Medical Center Groningen, nos Países Baixos, em parceria com o grupo brasileiro. Ao todo, foram utilizados 24 rins de suínos, divididos em três grupos, com e sem o uso do medicamento, em diferentes condições de perfusão.
Os resultados indicaram uma redução significativa de marcadores inflamatórios nos rins tratados. “O anakinra bloqueou a inflamação e melhorou o perfil molecular dos órgãos”, relata Ludimila Leite Marzochi, principal autora do estudo.
Segundo ela, análises de toxicidade mostraram que o medicamento não causou danos ao tecido renal nem prejuízo à função do órgão.
Próximos passos
A próxima etapa da pesquisa prevê testes em rins humanos que seriam descartados para transplante. Essa fase deve começar a partir deste ano, em parceria com um centro de pesquisa em Indiana, nos Estados Unidos.
“A ideia é avançar para um cenário mais próximo da prática clínica e avaliar a viabilidade do uso em transplantes reais”, explica Ludimila.
Caso os resultados se confirmem, o grupo pretende investigar a aplicação do anakinra também no método tradicional de preservação estática. “Se conseguirmos adicionar a droga à solução usada hoje, poderíamos melhorar a qualidade dos rins sem a necessidade de grandes investimentos em tecnologia”, afirma Abbud-Filho.
Para os pesquisadores, o estudo mostra que avanços relevantes podem surgir a partir do uso estratégico de medicamentos já disponíveis.
“O anakinra pode se tornar uma ferramenta importante para tratar os rins antes do transplante e ampliar as chances de sucesso. O desafio agora é transformar esses achados experimentais em benefício concreto para os pacientes”, conclui Ludimila.
Fonte: Metrópoles
Karoline
Foto: Reprodução

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