A foto na parede mostra o barracão onde a história do produtor Vitalino Wacherski começou, há mais de 40 anos. Ele relembra com orgulho dos percalços e da determinação que fizeram da Chácara Ressaca uma das referências na produção de leite em Castrolanda, bairro da área rural de Castro (PR) reconhecido como uma das principais bacias leiteiras do país.
Sua história já esteve nas páginas da Globo Rural, em junho de 1989. A reportagem “Os olhos azuis dos Campos Gerais” mostrou os imigrantes holandeses que se instalaram na região. E destacou o desenvolvimento tecnológico e a produtividade da bacia leiteira local.
Na época, Wacherski tinha 32 vacas da raça holandesa em lactação, produzindo 200 litros de leite por dia. Hoje, são 175, com média diária de 6.900 litros. “Eu sou muito apaixonado pelo que faço e pelo rebanho que temos", diz o produtor.
Crescer e aumentar a eficiência do negócio exigiu dedicação e controle financeiro para investir em melhorias e tecnologia. Da primeira vaca, Julha (que viveu 19 anos e também tem seu retrato em destaque no escritório da fazenda) às atuais, tudo sempre foi cuidadosamente planejado.
A gestão une modernidade e tradição. Wacherski se informatizou sem deixar de lado as anotações no papel, com dados de custos e produção. E tem uma regra importante: evitar dívidas. “Faço os investimentos na propriedade com recursos próprios. Nunca fiz financiamento, porque tenho medo de dívida”, afirma. A exceção foram as placas de energia solar, parceladas diretamente com o fornecedor.
O bom desempenho desse modelo de negócio é validado pelos números. A contagem de células somáticas (CCS) é de 90.000/mL, e a contagem padrão em placas (CPP), abaixo de 1.000 UFC/mL. Os dois indicadores mostram que o rebanho está saudável e a ordenha tem padrão de excelência. Avaliados pela indústria, rendem bonificação para o produtor.
Hoje, Wacherski administra a fazenda junto com os três filhos. É o responsável pela parte financeira. Desde quando iniciou a sucessão familiar, cada avanço é avaliado em conjunto. “Pesquisamos o custo, avaliamos o poder aquisitivo que temos naquele momento e programamos a compra. Primeiramente, fazemos o alicerce financeiro.”
Lariane, uma das filhas, responsável pela sanidade e pela genética dos animais, credita os bons resultados a uma série de fatores: manejo do gado, conforto animal, nutrição adequada, cuidado criterioso na ordenha e busca de touros com alto valor genético para reprodução, visando aumentar a produção de leite e a resistência a doenças, como a mastite.
Ela afirma que cada vaca produz em torno de 40 litros de leite por dia, em média. O volume supera o índice nacional. A Embrapa Gado de Leite calcula entre 30 e 35 litros por vaca ao dia em propriedades com sistemas mais intensivos em capital e animais confinados.
Larissa Wacherski responde pela higiene e pela limpeza. A ordenha, mecanizada, é feita duas vezes por dia. As vacas em produção ficam no sistema free stall, com robô empurrador de alimentos. Esse investimento elevou a produção em 1,5 litro a mais por animal. Junto com a irmã, ela também conduz as inseminações.
Marçal, o irmão delas, é responsável pela produção da alimentação do rebanho. Ele conta que 40 hectares da propriedade têm lavouras de milho e azevém para silagem e pré-secado. “Conseguimos economizar na compra do fubá e da ração.” Ainda assim, a nutrição representa 71,84% do custo de produção na propriedade.
Para manter o padrão, a família investiu, recentemente, na ampliação da sala de ordenha, em um barracão para armazenar produtos de nutrição, um silo de ração e novos espaços para escritório e sala de medicamentos, seguindo as normas de boas práticas. O próximo projeto, conta Lariane, é ampliar o sistema free stall para novilhas, vacas prenhas e aquelas destinadas à inseminação.
A forma de gerenciar o negócio e seus resultados tornaram a Chácara Ressaca um modelo. Ela integra a Rota do Leite, que abre as portas das propriedades mais eficientes da região para os visitantes. A iniciativa faz parte da programação oficial da Agroleite, feira realizada anualmente pela Cooperativa Castrolanda.
Glauco Carvalho, economista e pesquisador da Embrapa Gado de Leite, ressalta que o mercado traz oportunidades para produtores eficientes, que monitoram seus custos. “São os que têm mais sucesso na atividade. Aqueles que não fazem o controle leiteiro e não investem em tecnologia têm dificuldade de permanecer”, adverte. Controle leiteiro é a medição ou pesagem periódica da produção de leite por vaca, o que contribui para a avaliação da produtividade e ajustes no manejo. “Muitos produtores não fazem”, pontua.
O número de fazendas dedicadas à bovinocultura leiteira está diminuindo no Brasil, acompanhando uma tendência mundial. De 2006 para 2017, passou de 874.500 para 634.500, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estimativas do Centro de Inteligência do Leite (CILeite) da Embrapa indicam aproximadamente 513.000 propriedades em 2025, queda de 41,3% em quase 20 anos.
Nas que permanecem, por outro lado, a tendência é de aumento na produção. Informações da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) do IBGE, compiladas pelo CILeite, mostram que a produtividade média passou de 1.105 litros por vaca ao ano, em 2000, para 2.362 litros, em 2024. A produção de leite subiu de 19,7 bilhões para 35,7 bilhões de litros nesses 24 anos.
“Existe um movimento de busca de ganho de escala e competitividade, o que garante um preço mais alto ao produtor”, explica o pesquisador. Além disso, quem se mantém na atividade acaba adquirindo pelo menos parte do rebanho de quem decidiu mudar.
Apesar da desistência ser verificada em propriedades menores e menos estruturadas, o pesquisador da Embrapa ressalta que em torno de 70% a 80% dos produtores de leite do Brasil são enquadrados como “pequenos”, para quem a tendência é de crescimento na produção no curto prazo.
“Existe um movimento de busca de ganho de escala e competitividade, o que garante um preço mais alto ao produtor” — Glauco Carvalho, pesquisador da Embrapa Gado de Leite
“Quem produz 500 litros de leite por dia, hoje, deve passar a produzir 1.000 litros ao dia em pouco tempo. Com a mesma estrutura, ele verá que consegue dividir mais o custo fixo. E o fator econômico é a causa desse aumento, pois, ao crescer em volume, o produtor receberá um preço melhor”, considera.
Ganhar eficiência e ampliar a rentabilidade na pecuária de leite, entretanto, depende de investimentos em melhorias e tecnologia. É o que afirma Christiano Nascif, diretor da consultoria Labor Rural.
Ele avalia como “conservador” o modelo de negócio dos Wacherski. Pontua, no entanto, que não são todos os produtores que têm a mesma condição de se manter sem recorrer a financiamentos. E o atual nível da taxa Selic, em 14% ao ano, dificulta a situação de quem precisa de crédito. “Dificilmente eles conseguem pagar um empréstimo com essa taxa.”
O pecuarista médio é o que mais corre riscos, considera Nascif. “O grande produtor conta com tecnologia e assistência técnica. O pequeno produtor se vira com a mão de obra familiar e ajusta receita e despesa”, explica. O de perfil médio, normalmente, tem um capital empatado muito alto, o que não permite que ele deixe a atividade de uma hora para outra. O analista elenca como indicadores ideais na atividade: boa pastagem, produção de volumoso de qualidade, número maior de vacas em lactação por área, genética e reprodução adequadas.
“Um exemplo de rebanho estabilizado seria 55% de vacas em lactação, 35% de fêmeas em cria e recria e 10% de vacas secas”, indica. Ele aponta como solução manter um capital de giro. O cálculo é ter em lactação, no mínimo, 45 em cada 100 vacas. “É um percentual para ele ter uma receita mínima no mês para girar. Porém, a média, no Brasil, é de cerca de 20%”, estima.
Também é fundamental medir a produtividade média das vacas em litros por hectare de fazenda ao ano. E avaliar a performance da mão de obra. “É inadmissível que o produtor que tem um patrimônio avaliado entre R$ 3 milhões e R$ 10 milhões não tenha R$ 10.000 no caixa. Economicamente ele está bem, mas financeiramente está mal”, resume Nascif. O consultor alerta ainda que nem sempre o preço pago ao produtor é a forma mais eficiente de medir a rentabilidade do negócio. “A correlação equilibrada entre produtividade e custo é muito mais forte na margem do que o preço. Por isso, a eficiência é fundamental, o que está diretamente relacionado com fluxo e capital de giro.”
Os especialistas salientam o perfil diferenciado dos produtores dos Campos Gerais em relação ao restante do país, tendo em vista o alto nível de tecnologia e o apoio das cooperativas da região. Castro e Carambeí lideram a produção de leite, com quase 800 milhões de litros ao ano, segundo a PPM do IBGE.
O veterinário Gilberto Foltran, consultor da Elanco Saúde Animal, que atende a família Wacherski, observa que os primeiros trabalhos de melhoramento genético começaram nessa região do Paraná, favorecendo o alcance dos atuais níveis de produtividade e qualidade.
Ele acrescenta que a boa sanidade do rebanho em propriedades como a dos Wacherski tem relação também com diversos aspectos do manejo dos animais, como a melhora do sistema de defesa das vacas e a redução da incidência de doenças.
Fonte: Globo Rural
Karoline
Foto: Glow Energia

0 Comentários