“Você vai para outros países, que as pessoas têm retorno, as pessoas não são tão críticas ao tributo. Aqui no Brasil, o tributo é uma norma de rejeição social porque, infelizmente, a gente paga muito e vê pouco, e aí acaba que a população tem esse distanciamento, essa rejeição à tributação”, explica Bianca Xavier, professora de Direito Tributário da FGV e diretora da Sociedade Brasileira de Direito Tributário (SBDT).
Peso desigual nos bolsos
Além da percepção de pouco retorno em serviços públicos, os impostos pesam tanto no bolso do brasileiro porque são cobrados de forma desigual. Segundo especialistas, proporcionalmente, quem ganha menos paga mais imposto no país.
Isso ocorre porque os tributos sobre consumo — embutidos nos preços de produtos e serviços — são altos, enquanto os que incidem sobre renda e patrimônio têm peso menor. Como todos pagam a mesma alíquota ao consumir, esses impostos comprometem uma parcela maior da renda das famílias mais pobres.
Em 2024, os impostos sobre bens e serviços foram a principal fonte de arrecadação, somando R$ 1,64 trilhão, o equivalente a 14% do PIB e a 43,5% da carga tributária total, segundo dados da Receita Federal.
Na outra ponta, os mais ricos pagam proporcionalmente menos. Um estudo de 2025 mostra que pessoas com renda anual acima de R$ 5,5 milhões têm uma alíquota efetiva média de 20,6%, enquanto o brasileiro médio paga cerca de 42,5% da renda em impostos.
Já os tributos sobre lucro, renda e ganho de capital somaram R$ 1,07 trilhão em 2024, o equivalente a 9,1% do PIB — valor abaixo da média dos países da OCDE, que foi de 12,1% do PIB em 2023.
O que fazer então?
Segundo especialistas, uma das chaves para reduzir o peso dos impostos no bolso dos brasileiros passa pela forma como o governo gasta os recursos públicos. A avaliação é que o Estado brasileiro gasta muito e nem sempre gasta bem. Com despesas mais eficientes e melhor direcionadas, a carga tributária poderia pesar menos, mesmo sem cortes diretos de impostos.
Um dos principais exemplos citados é o volume de subsídios e benefícios fiscais concedidos pelo governo. Esses incentivos reduzem ou isentam determinados setores do pagamento de tributos e representam uma perda significativa de arrecadação — nem sempre acompanhada de retorno social ou econômico direto para a população.
Dados do Ministério da Fazenda mostram que os chamados gastos tributários, que incluem isenções, deduções e regimes especiais, somaram mais de R$ 540 bilhões no último ano. Para especialistas, parte desses benefícios poderia ser reavaliada ou extinta, abrindo espaço para uma distribuição mais eficiente dos recursos públicos.
O principal problema, segundo eles, é a dificuldade de comprovar a efetividade desses incentivos. “O beneficiário deveria demonstrar, por critérios objetivos, que está devolvendo à sociedade um benefício que justifique essa renúncia”, afirma o professor de Finanças Públicas da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Piscitelli.
A diretora da Sociedade Brasileira de Direito Tributário (SBDT), Bianca Xavier, avalia que os subsídios tendem a ser mais eficientes quando estão ligados a políticas públicas que impactam diretamente a vida das pessoas. Quando a renúncia fiscal beneficia apenas setores econômicos específicos, o efeito costuma ser pouco perceptível para a população.
“Política pública a gente consegue ver. Mas quando o governo concede um benefício a um setor econômico, a população se pergunta: ‘Por que aquela indústria ou o agronegócio não estão pagando tributos?’”, afirma.
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