Decisão judicial mantém detenção de todos os alvos de operação policial

Reprodução/Polícia Federal
A Justiça Federal manteve todas as 33 prisões realizadas pela PF (Polícia Federal) durante a Operação Narco Fluxo, deflagrada na quarta-feira (15). A ação teve como objetivo desarticular uma quadrilha que lavava dinheiro utilizando a indústria da música e de entretenimento digital, através de artistas e influenciadores.

Entre os presos estão os cantores MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, o casal de influenciadores Chrys Dias e Débora Paixão, além do dono da página Choquei Raphael Sousa Oliveira.

À CNN Brasil, o TRF3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região) informou que todas as audiências foram realizadas pela Justiça e as prisões temporárias foram mantidas.

De acordo com o TRF3, a única exceção foi o caso de Débora, que teve a sua detenção convertida para domiciliar, com o uso de tornozeleira eletrônica.

A Justiça também afirmou que caso haja novos pedidos das defesas, ou quaisquer outros que estejam pendentes, serão analisados apenas depois de uma reunião realizada entre a PF e o MPF (Ministério Público Federal).

Entenda a operação
A investigação teve início a partir da análise de um backup na nuvem (iCloud) de Rodrigo Morgado, apontado como o contador do esquema, cujos dados foram obtidos na investigação anterior, a Operação Narco Bet.

Para mascarar a origem ilícita dos recursos e enganar os órgãos de fiscalização, a organização utilizava um mecanismo batizado de escudo de conformidade, em que artistas e influenciadores digitais usavam sua visibilidade pública e engajamento na internet para naturalizar transações milionárias.

A lavagem do capital operava em três eixos principais:
Pulverização: Inserção de dinheiro sem lastro econômico por meio da venda de ingressos para shows, produtos e ativos digitais.
Dissimulação: Uso intensivo de criptoativos, transporte de dinheiro em espécie e múltiplas transferências fracionadas para dificultar o rastreamento financeiro.
Interposição de terceiros: O chamado "aluguel de CPFs", com o uso de familiares, laranjas e empresas de fachada para esconder quem eram os reais donos dos valores.
A investigação identificou um fluxo financeiro de R$1,6 bilhão movimentado pelo grupo em menos de dois anos, valor que teve seu sequestro e bloqueio determinado pela Justiça. As estimativas da PF apontam que a organização pode ter movimentado até R$260 bilhões.

A ação contou com mais de 200 policiais federais cumprindo 45 mandados de busca e apreensão e 39 mandados de prisão temporária em nove estados e no Distrito Federal.

Foram apreendidos R$ 20 milhões referentes a cerca de 55 veículos de luxo (incluindo modelos Porsche, BMW, Amarok e uma réplica de um carro de Fórmula 1 da McLaren), além de armas, R$ 300 mil e US$ 7,3 mil em espécie, 56 joias e relógios Rolex, e o bloqueio de saldo em corretoras de criptomoedas.
MC Ryan SP: Apontado como o líder e principal beneficiário econômico do esquema, o funkeiro utilizava suas produtoras musicais e rotinas de shows para misturar receitas legítimas com recursos ilegais, blindando seu patrimônio em nome de laranjas.

Raphael Sousa Oliveira (Choquei): O criador da página de fofocas foi identificado como "operador de mídia" da organização. Ele recebia altos valores para divulgar plataformas de apostas, rifas e conteúdos favoráveis aos artistas, atuando também para abafar potenciais crises de imagem.

MC Poze do Rodo: Funkeiro preso em sua residência no Rio de Janeiro, associado à circulação de recursos de apostas e rifas.

Outros envolvidos: O esquema também levou à prisão o influenciador Chrys Dias e sua esposa Débora Paixão (financiadores), Mateus Magrini (irmão de MC Ryan que captava fluxos para as plataformas de jogos), além de operadores logísticos e financeiros da organização.

Ligação com o PCC
As investigações da PF constataram um forte vínculo da rede de lavagem de dinheiro com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

O elo principal foi identificado como Frank Magrini, operador financeiro com histórico criminal por tráfico de drogas e roubo a bancos.

Leia também: PCC no mercado musical: entenda investigação que envolve MC Ryan SP

Há evidências de que Magrini financiou o início da carreira de MC Ryan SP no ano de 2014 e recebia repasses periódicos de "mensalidades" para a facção originados de estabelecimentos comerciais controlados pelo grupo investigado.

O que dizem as defesas?
MC Ryan SP
"A defesa técnica de MC Ryan informa, de forma respeitosa, que até o presente momento não teve acesso ao procedimento que tramita sob sigilo, razão pela qual está impossibilitada de apresentar manifestação específica sobre os fatos.

Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável.

A defesa confia plenamente que os esclarecimentos necessários serão prestados oportunamente, acreditando que, já no início da investigação, a verdade dos fatos será devidamente demonstrada."

MC Poze do Rodo
“A Defesa de Marlon Brandon desconhece os autos ou teor do mandado de prisão. Com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário.”

Raphael Sousa Oliveira
"A defesa de Raphael Sousa Oliveira esclarece que seu vínculo com os fatos investigados decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital.

Os valores por ele recebidos referem-se a serviços efetivamente prestados de publicidade e marketing, atividade lícita e regularmente exercida há anos.

Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada.

A defesa está adotando as medidas cabíveis e demonstrará, no momento oportuno, que sua atuação sempre se deu dentro dos limites da legalidade."

A reportagem tenta localizar as defesas de Chrys Dias e Débora Paixão. O espaço segue aberto.

Fonte: CNN