Durante anos, o sal ocupou sozinho o papel de vilão quando o assunto é pressão alta. A recomendação de reduzir o sódio segue válida, mas ela não conta toda a história.
Um outro componente da alimentação diária, muitas vezes associado apenas ao ganho de peso ou ao diabetes, também exerce influência direta sobre a pressão arterial: o açúcar.
Segundo o cardiologista Marcelo Bergamo, o impacto dos açúcares adicionados sobre o sistema cardiovascular é subestimado. “Hoje sabemos que o açúcar, especialmente a frutose e os açúcares adicionados, pode elevar a pressão tanto quanto o sal”, afirma.
De acordo com o especialista, o consumo excessivo de açúcar estimula o aumento de insulina, ativa o sistema nervoso simpático, favorece a retenção de sódio pelos rins e compromete a função do endotélio, tecido epitelial importante para a saúde dos vasos sanguíneos.
Na prática clínica, esse efeito é ainda mais evidente em pessoas com sobrepeso, resistência à insulina ou síndrome metabólica. “Em alguns estudos, o consumo elevado de açúcar mostrou associação com hipertensão semelhante ou até superior à do excesso de sal”, explica Bergamo. Para ele, focar apenas no saleiro pode desviar a atenção desse problema igualmente relevante.
Do ponto de vista cardiovascular, o ideal é consumir o mínimo possível de açúcar adicionado. “As diretrizes sugerem até 25 gramas por dia para mulheres e 36 gramas para homens, mas, na prática, quanto menos, melhor”, diz. Ele ressalta que os açúcares presentes nas frutas não entram nessa conta, já que vêm acompanhados de fibras e apresentam menor impacto metabólico.
Um dos principais desafios está no consumo invisível. O açúcar raramente aparece de forma óbvia na alimentação. “Ele surge disfarçado nos rótulos, com nomes como frutose, maltodextrina, dextrose, xarope de glicose”, alerta Bergamo. Molhos prontos, pães industrializados, cereais matinais, iogurtes adoçados e até produtos rotulados como “fitness” podem conter açúcar adicionado.
Para reduzir esse consumo, o cardiologista aponta três caminhos principais: ler rótulos com atenção, diminuir a presença de alimentos ultraprocessados e reeducar o paladar. “Reduzir aos poucos o açúcar do café, do chá e das preparações caseiras faz diferença ao longo do tempo”, orienta.
Embora o açúcar ganhe destaque, o sal não sai de cena. O problema, segundo Bergamo, é a combinação dos dois. “O açúcar agrava os efeitos do sódio. Ele aumenta inflamação, resistência à insulina e disfunção endotelial, deixando o organismo mais sensível ao sal”, explica. Dessa forma, os dois atuam de maneira conjunta, ampliando o impacto negativo sobre a pressão arterial.
Para o cardiologista, controlar a hipertensão exige um olhar mais amplo sobre a alimentação. “Não basta tirar o sal e manter o açúcar escondido na rotina. O controle eficaz da pressão passa, necessariamente, pela atenção aos dois”, conclui.
Fonte: Metrópoles
Karoline
Kinga Krzeminska/Getty Images

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