Produção de café especial transforma propriedades e movimenta turismo em Minas

Foto: Divulgação/Emater-MG

Além das paisagens montanhosas, das trilhas e do pão de queijo, os turistas que visitam Minas Gerais agora encontram mais um atrativo: os cafés especiais. A verticalização da cadeia produtiva e o surgimento de marcas próprias transformaram a bebida em uma nova experiência turística em regiões produtoras.

Em localidades como Caparaó e Alto Jequitibá, produtores contam com o apoio do Programa de Verticalização da Cadeia Produtiva do Café, desenvolvido pela Emater-MG. A iniciativa orienta famílias rurais em etapas como torra, moagem, criação de rótulos e comercialização do próprio café, agregando valor ao produto e ampliando as fontes de renda.

Em Caparaó, nas Matas de Minas, Luiza Lacerda e a família aumentaram a renda depois de investir na torrefação e passar a vender diretamente ao consumidor por meio da marca Os de Lacerda. “Fizemos um investimento de aproximadamente R$ 100 mil para adquirir os equipamentos e montar toda a estrutura física necessária. Esse investimento veio da própria atividade. Foi financiado com os recursos obtidos pela venda dos grãos, sem investimento externo”, explica.

A família produz cerca de 200 sacas de café por ano e acumula premiações pela qualidade dos grãos.

Segundo Luiza, a decisão de investir na torrefação surgiu da necessidade de aumentar a margem de lucro. Ela explica que, quando o produtor vende para torrefações e cafeterias, parte do valor fica com o transporte, a industrialização e a comercialização até o consumidor final.

“Ao passarmos a vender o produto já torrado, conseguimos chegar diretamente ao consumidor. Assim, parte da renda que antes ficava com outros elos da cadeia passou a permanecer dentro da propriedade”

Hoje, uma saca de café cru é vendida entre R$ 3 mil e R$ 4 mil, segundo Lacerda. “A mesma saca, depois de torrada, pode gerar cerca de R$ 8 mil em vendas. Considerando despesas como embalagem, por exemplo, conseguimos praticamente dobrar o retorno, saindo de cerca de R$ 3 mil para algo em torno de R$ 6 mil. Isso representa um aumento próximo de 40% em relação à renda anterior”.

Atualmente, cerca de 80% da produção ainda é comercializada em grão cru. Mesmo assim, Luiza afirma que a equipe, formada por oito pessoas, amplia gradualmente a participação do café torrado nas vendas.

Além do apoio da Emater, a demanda dos consumidores também incentivou a mudança. “Nossa família participa de muitos concursos e, quando chegamos às finais ou conquistamos destaque, as pessoas passam a procurar o café daquele produtor específico”, conta.

Ela explica que muitas torrefações compram o café da família e o comercializam com suas próprias marcas, embora a identificação dos produtores apareça nas embalagens. “Os visitantes vinham até a propriedade, experimentavam o café e queriam levar um pacote para casa ou comprar para presentear alguém. Foi assim que identificamos esse público”.

Turismo rural como novo negócio

Hoje, a propriedade também recebe turistas. A própria família organiza as visitas e conduz as atividades. “Recebemos visitantes e oferecemos experiências completas que incluem passar um dia na lavoura, colher café, conhecer todo o processo de produção e degustar os produtos”.

Os roteiros incluem ainda passeios pela propriedade e experiências gastronômicas ligadas ao universo do café.

Em Alto Jequitibá, também nas Matas de Minas, uma trajetória semelhante impulsionou o surgimento do “Café com Sonhos”, experiência de turismo rural criada pela produtora Silmara Emerick e sua família, que também receberam apoio da Emater-MG. “Os turistas visitam a torrefação, conduzida pelos meus filhos. Eles acompanham a torra do café e conhecem a etapa de embalagem para entender um pouco da nossa rotina. Depois, voltam para a varanda da casa e experimentam diferentes cafés produzidos aqui”.

Atualmente, a propriedade integra a Rota do Caparaó Mineiro, circuito voltado ao turismo de experiência e aos cafés especiais. A família também recebeu capacitação do Sebrae.

“O café especial trouxe outras oportunidades. Primeiro vieram os cafés especiais, depois a torrefação, as vendas para cafeterias e torrefações, e agora estamos ingressando no turismo rural”.

Segundo Silmara, cerca de 30% da produção de cafés especiais já é comercializada diretamente ao consumidor.

Premiações abriram caminhos

Antes de investir nos cafés especiais, Silmara trabalhava apenas com o café convencional vendido como commodity. “A propriedade onde moro veio dos meus pais e essa sempre foi a nossa atividade”.

Em 2019, ela decidiu testar o potencial da fazenda para a produção de cafés especiais. Pouco tempo depois, os resultados começaram a aparecer. Os grãos produzidos na propriedade conquistaram classificações em concursos regionais e nacionais, dando origem à marca Café da Silmara.

“Quando começamos a ser premiados, nossa perspectiva de vida na roça mudou completamente. Passamos a pensar seriamente na produção de cafés especiais. Nos anos seguintes continuamos sendo premiados, em 2020 e 2021. Meus filhos acompanharam esse processo e começaram a se interessar pela torrefação do café”.

Com os recursos obtidos pela venda do café torrado, a família montou sua própria estrutura de torrefação. “Hoje são meus filhos, Alisson e Henrique, que cuidam da torrefação. Eu dou suporte nas vendas. Além disso, eles cuidam das embalagens e do empacotamento. Na verdade, trabalhamos todos juntos”, conta.

Silmara afirma que o marido, Charles, também contribuiu para ampliar a produção ao adaptar uma máquina utilizada no processo. “Essa adaptação nos ajudou muito nos processos produtivos e permitiu aumentar o volume de café especial produzido. Antes era uma quantidade pequena”.

Hoje, as experiências oferecidas aos visitantes incluem degustações guiadas, nas quais os participantes tentam identificar os diferentes perfis sensoriais dos cafés produzidos na propriedade.

“O mercado de cafés especiais ainda está em expansão, mas cresceu bastante desde quando começamos. Tenho percebido um aumento constante nas vendas. Cada vez mais clientes compram nosso café e voltam a comprar. Temos percebido uma fidelização crescente.”

Segundo a produtora, a assistência técnica da Emater teve papel decisivo na profissionalização do negócio. “Inclusive nos nossos pacotinhos de café, a Emater nos orientou a colocar as informações necessárias nos rótulos”, afirma.

Para Silmara, o principal benefício da verticalização está em manter dentro da propriedade a renda gerada ao longo de toda a cadeia produtiva.

Fonte: Globo Rural